Reflexão e avaliação no Ensino Médio
O currículo e avaliação precisam ser concebidos numa
dimensão indissociável, pois as
competências e habilidades a serem ensinadas são as que devem ser avaliadas.
Numa primeira abordagem, a avaliação seria mediadora do processo de ensino e
aprendizagem e teria como papel fundamental saber em que medida os direitos de
aprendizagem estão sendo alcançados.
No entanto, avaliar aprendizagens e o
desenvolvimento de competências e habilidades como direitos dos estudantes no
ensino médio exige a desconstrução de práticas históricas de avaliação, que
ainda são centradas na
prova como principal e único instrumento, ou seja, avaliações pontuais.
Práticas equivocadas focadas em medir, com ênfase na recuperação da nota e não
na aprendizagem, ações onde ensinar e avaliar são concebidos de forma
dicotômica, cujas funções são classificar, comparar e selecionar estudantes.
Nossas considerações têm, entre outras referências, o conceito de
avaliação de Lukas Mujika e Santiago Etxebarría (2009, p. 91), para os quais
avaliação é o processo de identificação, coleta e análise de informações
relevantes – que podem ser quantitativas ou qualitativas - de modo sistemático,
rigoroso, planejado, dirigido, objetivo, fidedigno e válido para emitir juízos
de valor com base em critérios e referências, preestabelecidos para determinar
o valor e o mérito do objeto educacional em questão, a fim de tomar decisões
que ajudem a aperfeiçoar o objeto mencionado. Ou seja, a avaliação tem como
referência fundamental a tomada de decisão com foco fundamental na
aprendizagem.
Com efeito, a prática avaliativa exige um olhar reflexivo e
investigativo do professor como postura
permanente ao longo desse processo sobre as aprendizagens, em diferentes
momentos, com referência sempre na necessidade de reajustamento metodológico
tendo em vista a aprendizagem do estudante.
No Ensino Médio, os processos de ensino e avaliação devem instigar no
estudante a reflexão, o pensamento, o raciocínio permanentemente em situações
desafiadoras que não apenas proporcionarão elementos de análise ao professor,
mas também ensinarão o aluno a refletir sobre seu próprio desempenho, pela vivência constante, em que suas capacidades
sejam testadas e desenvolvidas. Assim, a apresentação de um seminário, a
resolução de um teste de múltipla escolha, por exemplo, podem se configurar
tanto num processo de ensino quanto de avaliação, pois o olhar investigativo do
professor analisará capacidades e conhecimentos manifestados nestas situações.
Nesse aspecto, entende-se que o uso de apenas um instrumento para a
avaliação ou a predominância de um deles é demasiado insuficiente para avaliar
a complexidade das capacidades e aprendizagens requeridas nos diversos
componentes curriculares. Portanto, é certo afirmar que, quanto maior a
diversificação dos instrumentos para a avaliação, melhores condições o professor terá para
verificar diferentes aprendizagens e aptidões dos estudantes.
A utilização das estratégias e instrumentos deve estar sempre
condicionada e adequada ao contexto, aos objetivos e aos critérios de avaliação
do componente curricular e às competências que o professor deseja avaliar. Alguns instrumentos avaliam melhor
determinadas capacidades que outros. O professor
pode se instrumentalizar de pré-testes, provas escritas e orais, trabalhos,
pesquisas em duplas ou grupos, relatórios ou trabalhos escritos individuais ou
em grupos, seminários, questionários para grupos, estudos de caso, portfólio
individual ou coletivo, webquests e autoavaliação, tendo como postura máxima a
observação investigativa.
Cabe ao professor do componente curricular definir os instrumentos que
serão utilizados para melhor acompanhar o processo de aprendizagem de seus
alunos. Não existem instrumentos específicos de avaliação capazes de detectar a
totalidade do desenvolvimento e aprendizagem dos alunos. É diante da limitação
de cada instrumento de avaliação que se faz necessário pensar em instrumentos
diversos e mais adequados para que, juntos, cumpram com a complexidade do
processo de aprender.
Abaixo, podem-se resumir algumas das principais estratégias e
instrumentos avaliativos com algumas definições
e orientações para o seu desenvolvimento.
Essa postura visa à análise do desempenho do aluno com base em fatos
do cotidiano escolar ou em situações planejadas que possibilitem seguir o
desenvolvimento do aluno e obter informações sobre as áreas afetiva, cognitiva
e psicomotora.
Esta estratégia auxilia o professor a perceber como o aluno constrói o
conhecimento, seguindo de perto todos os passos desse processo em construção.
Para evitar que a observação aconteça sem critérios ou se confunda com
mera atribuição de nota com base em uma observação pontual, é importante que o
professor considere dados fundamentais no processo de aprendizagem e se utilize
de registros/fichas e faça anotações periodicamente, no momento em que ocorrem
os fatos, evitando generalizações e julgamentos subjetivos.
Outro aspecto importante é a atenção devida à participação em sala de
aula. Trata-se de analisar o desempenho do aluno em fatos do cotidiano da sala
de aula ou em situações planejadas.
Esta ação permite que o professor perceba como o aluno constrói o
conhecimento, já que é possível acompanhar de perto todos os passos desse
processo. Reforçamos que é necessário que o professor faça anotações no momento
em que os fatos ocorrem, ou logo em seguida, para que sejam evitadas as
generalizações e os julgamentos com critérios subjetivos. Desta forma, habilita
o professor a elaborar intervenções específicas para cada caso e novas ações
sempre que julgar necessário.
A observação exige do professor:
- Elencar o objeto de sua observação (um aluno, uma dupla, um grupo
etc.);
- Elaborar objetivos claros (descobrir dúvidas, avanços etc.);
- Identificar contextos e momentos específicos para análise (durante a
aula, no recreio etc.);
- Estabelecer formas de registros apropriados (vídeos, anotações etc.).
As fichas ou registros em geral têm como função
acompanhar o processo educativo vivido por alunos e professores. Por intermédio
desse registro, tornar-se-á possível realizar uma análise crítica e reflexiva
do processo de aprendizagem.
As fichas podem auxiliar o professor a comparar as anotações do início
do ano com os dados mais recentes para perceber o que o aluno já realiza com
autonomia e o que ainda precisa de acompanhamento.
Os instrumentos de registro, em geral, servem como uma lupa sobre o
processo de desenvolvimento do aluno e permitem a elaboração de intervenções
específicas para cada caso. Ainda, contribuem para que os dados significativos
da prática de trabalho não se percam e permitam aos educadores perceberem e
analisarem ações e acontecimentos, muitas vezes despercebidos no cotidiano
escolar.
Alguns recursos podem ser utilizados, dentre eles:
A. Caderno de Campo do professor: registro de aulas expositivas,
anotações em sala de aula, projetos, relatos, debates, etc. Pode conter anotações
para cada grupo de alunos: anotações periódicas sobre acontecimentos
significativos do cotidiano escolar;
B. Diário de Classe - SIAEP: registro de caráter obrigatório que professores
fazem para fins pedagógicos e legais;
C. Arquivo de atividades: coleta de exercícios e produções dos alunos,
datadas e com algumas observações rápidas do professor. Esse arquivo serve como
referência histórica do desenvolvimento do grupo;
Prova Objetiva
A prova objetiva caracteriza-se por ser uma série de perguntas
diretas, com respostas curtas e apenas uma resposta possível. Esta prova
possibilita avaliar quanto o aluno apreendeu sobre dados singulares e
específicos do conteúdo.
É uma estratégia utilizada com frequência pelos professores e poderá
abordar grande parte do que o professor trabalhou em sala de aula. No entanto,
requer atenção, pois pode ser respondida ao acaso ou de memória e sua análise
não permite por si só constatar quanto o aluno
adquiriu de conhecimento.
Para tanto, é importante que o professor selecione os conteúdos e
capacidades que quer avaliar para elaborar as questões e faça as chaves de correção,
elaborando as instruções sobre a maneira adequada de responder às perguntas.
Para isso, é indispensável que o professor liste os conteúdos que os alunos
precisam estudar, ensine estratégias que facilitem associações, como listas
agrupadas por ideias, relações com elementos gráficos e ligações com conteúdos
já assimilados tendo como foco fundamental as capacidades que deseja avaliar ou
desenvolver.
Circunstancialmente, o professor pode submeter os estudantes a testes
orais, pois, dessa forma, os estudantes expõem individualmente seus pontos de
vista sobre tópicos do conteúdo ou resolvem problemas em contato direto com o
professor, sendo bastante útil para desenvolver a oralidade e a habilidade de
argumentação.
Caracteriza-se por apresentar uma série de perguntas (ou problemas, ou
temas, no caso da redação), que exijam capacidade de estabelecer relações, de
resumir, analisar e julgar. Avalia a capacidade de analisar um problema
central, abstrair fatos, formular ideias e redigi-las: permite que o aluno
exponha seus pensamentos, mostrando habilidades de organização, interpretação e
expressão.
O professor precisa definir o valor de cada pergunta, atribua pesos
referentes à clareza das ideias, a capacidade de argumentação e conclusão. Se o
desempenho não for satisfatório, o professor deve criar experiências e
motivações que permitam ao aluno chegar à formação dos conceitos mais
importantes.
Eventualmente, o professor pode possibilitar a prova com consulta. Admitindo-se,
pois, a consulta de livros ou apontamentos para responder. Se bem elaborada, a
prova com consulta pode permitir que o aluno demonstre não apenas o seu
conhecimento sobre o conteúdo objeto da avaliação, mas ainda a sua capacidade
de pesquisa, de buscar a resposta correta e relevante, além de sua
sistematização.
O seminário caracteriza-se pela exposição oral,
utilizando a fala e materiais de apoio adequados ao assunto. Trata-se de uma
estratégia de ensino e avaliação vantajosa, por possibilitar a transmissão
verbal das informações pesquisadas de forma eficaz e contribuir para a
aprendizagem do ouvinte e do expositor. O seminário sempre se associa a outras
estratégias, pois exige pesquisa, planejamento, registros, debate, organização
das informações e visa a desenvolver a oralidade em público.
Para realização dessa estratégia, é
importante conhecer as características pessoais de cada aluno para evitar comparações na
apresentação, desconsiderando a evolução de um tímido em relação aquele aluno
desinibido.
O professor
deve ajudar na delimitação do tema, fornecendo bibliografia e fontes de
pesquisa, esclarecendo os procedimentos apropriados de apresentação, definindo
a duração e a data dessa apresentação, solicitando relatório individual e
registros de todos os alunos.
É tecnicamente viável que o professor atribua pesos à abertura, ao
desenvolvimento do tema, aos materiais utilizados e à conclusão do trabalho. É
fundamental que se estimule a classe a fazer perguntas, emitir opiniões,
fazendo circular informações ampliando assim o conhecimento do grupo.
Quando as apresentações não forem satisfatórias, o professor deve
planejar atividades específicas que possam auxiliar no desenvolvimento dos
objetivos não atingidos.
É todo tipo de produção realizada em parceria pelos alunos, sempre
orientadas pelo professor. Atividades de natureza diversa (escrita, oral,
gráfica, corporal etc.)
Estimula os alunos à cooperação e realização de ações conjuntas,
propiciam um espaço para compartilhar, confrontar e negociar ideias. É
necessário que haja uma dinâmica interna das relações sociais, mediada pelo
conhecimento, potencializada por uma situação problematizadora, que leve o
grupo a colher informações, explicar suas ideias, saber expressar seus
argumentos.
Permite um conhecimento maior sobre as possibilidades de verbalização
e ação dos alunos em relação às atividades propostas.
É necessário considerar as condições de produção em que ocorrerão: o
tempo de realização, o nível de envolvimento e de compromisso dos alunos, os
tipos de orientações dadas, as fontes de informação e recursos materiais
utilizados.
O trabalho em grupo favorece o
desenvolvimento do espírito colaborativo e a socialização, possibilitando o
trabalho organizado em classes numerosas e a abrangência de diversos conteúdos.
É importante ressaltar que propor o
trabalho em grupo para os alunos não é deixá-los desassistidos ou sem apoio. É
indispensável que o professor proponha uma série de atividades relacionadas ao
conteúdo a ser trabalhado, fornecendo fontes de pesquisa, ensine os
procedimentos necessários e indique os materiais básicos para a consecução dos
objetivos.
O professor deve
observar, ainda, se houve participação de todos e colaboração entre os colegas,
atribuindo valores às diversas etapas do processo e ao produto final. Em caso
de problemas de socialização, é recomendada a organização de jogos e atividades
em que a colaboração seja o elemento principal.
Os debates são uma ótima alternativa
de discussão em que os alunos expõem seus pontos de vista a respeito de
assuntos polêmicos.
A ideia é que o estudante aprenda a defender uma opinião
fundamentando-a em argumentos convincentes, desenvolva a habilidade de
argumentação e a oralidade e aprenda a escutar opiniões diversas com um
propósito.
Como o professor pode atuar como mediador?
- Defina o tema, oriente a pesquisa prévia, combine com os alunos o
tempo, as regras e os procedimentos; mostre exemplos de bons debates;
- Ofereça oportunidades de participação a todos e não aponte
vencedores, pois, em um debate, deve-se priorizar o fluxo de informações entre
as pessoas;
- Estabeleça pesos para a pertinência da intervenção, a adequação do
momento de uso da palavra e a obediência às regras combinadas;
- Solicite, ao final, relatórios ou produções que contenham os pontos
discutidos.
Como proposta, se possível, o professor deve filmar a discussão para análise
posterior.
Relatório ou Produções
Textos produzidos pelos alunos,
individual e coletivamente, depois de atividades práticas ou projetos temáticos,
são fundamentais como tarefa avaliativa, pois possibilitam averiguar se o aluno
adquiriu conhecimento e se conhece as estruturas
de texto.
Os textos possibilitam avaliar o real
nível de apreensão de conteúdos depois de atividades coletivas ou individuais,
como pesquisa, seminário e debates, por exemplo.
No entanto, o professor deve evitar julgar a opinião do
aluno. O mais importante é que seja definido o tema e que a turma seja
orientada sobre a estrutura apropriada (introdução, desenvolvimento, conclusão e
outros itens que julgar necessários, dependendo da extensão do trabalho), o
melhor modo de apresentação e o tamanho aproximado.
O professor deve estabelecer pesos para cada item que for avaliado
(estrutura do texto, gramática, apresentação), bem como orientar os alunos
sobre os critérios adotados para distribuição de pontos.
Caso algum aluno apresente dificuldade em
itens essenciais, crie atividades específicas, indique bons livros e solicite
mais trabalhos escritos.
Autoavaliação
Autoavaliação é uma análise realizada
oralmente ou por escrito, em formato livre ou direcionado, que o aluno faz do
próprio processo de aprendizagem. É importante porque auxilia o aluno a
desenvolver a capacidade de analisar suas aptidões e atitudes, pontos fortes e pontos
fracos.
Contudo, a autoavaliação não deve ser
entendida como uma mera valoração do próprio desempenho pelos estudantes. O
aluno só se expressará livremente se sentir que há um clima de confiança entre
o grupo e o professor e se essa estratégia for utilizada com critérios para
ajudá-lo a aprender.
Assim, o professor deve fornecer ao aluno um roteiro de autoavaliação,
definindo as áreas sobre as quais gostaria que ele discorresse, listando
habilidades e comportamentos e pedindo para que ele indique aquelas em que se
considera apto e aquelas em que precisa de reforço.
O professor deve utilizar esse documento ou depoimento como uma das
principais fontes para o planejamento dos próximos conteúdos. Ao tomar
conhecimento das necessidades do aluno, sugira atividades individuais ou em
grupo para ajudá-lo a superar as dificuldades.
Conselho de Classe
Ouvir os professores das demais áreas
sobre o desempenho dos estudantes é de suma importância para que o processo
de ensino e aprendizagem se efetive. Assim, o conselho de classe auxilia professores a compartilhar
informações sobre a classe e sobre cada aluno para embasar a tomada de
decisões; favorece a integração entre professores; a análise do currículo e a
eficácia dos métodos utilizados; e facilita a compreensão dos fatos com a
exposição de diversos pontos de vista.
Os professores devem fazer sempre
observações concretas e não rotulando o aluno; cuidando para que a reunião não
se torne apenas uma confirmação de aprovação ou de reprovação.
Conhecendo a pauta de discussão e de
posse de seus registros, todos devem apontar os itens que pretendem comentar.
Todos os participantes devem ter direito à palavra para enriquecer o
diagnóstico dos problemas, suas causas e soluções.
O resultado final deve levar a um
consenso da equipe em relação às intervenções necessárias no processo de
ensino-aprendizagem, considerando as áreas afetiva, cognitiva e psicomotora dos
alunos.
O professor deve usar essas reuniões
como ferramentas de autoanálise. A equipe deve prever mudanças tanto na prática
diária de cada docente como também no currículo e na dinâmica escolar, sempre
que necessário.
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