Por Jan Hunt, Psicóloga Diretora do "The
Natural Child Project"
Uma
escola em minha cidade ofereceu às famílias a alternativa de apresentar as
notas das crianças apenas aos pais ou, se preferissem, não mostrar a ninguém.
As crianças dessas famílias não saberiam suas notas. Esse me parece ser um
passo na direção certa. Mas um editorial de nosso jornal local acusou os pais
que aceitaram essas alternativas de "superproteger" seus filhos e de
impedi-los de enfrentar importantes "conseqüências". Embora seja
"superproteção" esconder a verdade das crianças, notas baixas não são
a "verdade". Notas baixas podem ser conseqüência de vários fatores
fora do controle da criança, tais como a apreciação subjetiva negativa de um
professor, a incapacidade da escola de dar conta de diferenças individuais,
situações familiares perturbadoras, provas com perguntas mal formuladas e
concepções erradas sobre o que sejam matérias importantes. Se, como o próprio
editor do jornal sugere, as crianças "sabem quando vão bem e quando estão
se esforçando", não há necessidade de dar notas. As notas deveriam ter um
sentido informativo. A informação mais útil que se pode extrair delas é se o
método de ensino usado pelo professor é o mais adequado para o atual
interesse e estilo de aprendizado de cada criança em particular.
O
ensino inclui a escola, o professor, o aluno, os pais do aluno e a situação
atual do aluno, entre outros fatores. É injusto e irreal apresentar notas
baixas como uma medida apenas da ação da criança. As escolas usam dois pesos e
duas medidas, assumindo o crédito quando as coisas vão bem e culpando a criança
ou seus pais quando elas vão mal.
A
auto-estima da criança é um valor muito precioso. Pais que tentam preservar a
auto-estima dos filhos evitando os prejuízos potenciais de um sistema de
avaliação imperfeito, enganoso e nocivo, devem ser cumprimentados e não
criticados. Usar as notas como ameaça de castigo põe em risco não só a
motivação e a auto-estima da criança mas também a oportunidade de criar um
clima propício ao aprendizado. Como adverte o educador John Holt, "quando
amedrontamos as crianças, bloqueamos totalmente seu aprendizado". A
indignidade das notas baixas - embora a avaliação seja evidentemente subjetiva
- pode mesmo bloquear o aprendizado da criança ao destruir sua motivação e sua
crença em seu próprio valor e capacidade. O vandalismo escolar está associado à
raiva e à humilhação que a criança sofre ao receber notas baixas. Mesmo notas
"boas" dão à criança a falsa noção de que recompensas externas são
mais importantes do que o valor intrínseco do aprendizado.
De
qualquer modo, os pais têm o direito de decidir se as notas são úteis ou
nocivas para seus filhos; além disso [nos Estados Unidos] existe a alternativa
oficial de escolarizar as crianças em casa e acabar totalmente com as notas.
Para os pais que estão pensando em fazer essa opção e para todos aqueles
interessados na natureza do aprendizado, aconselho um livro revelador: 'How
Children Learn' ('Como as crianças aprendem'), de John Holt.
"O
segredo da educação está em respeitar o aluno. Não cabe a você escolher o que
ele vai aprender e o que ele vai fazer. Isso está predestinado e só ele tem a
chave para seu próprio segredo". Para as famílias que aprenderam a
respeitar e confiar em seus filhos, as palavras de Ralph Waldo Emerson ainda
soam verdadeiras.
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