PARADIGMAS
EDUCACIONAIS
1.1 Paradigma Tradicional ou Conservador
O paradigma tradicional leva o aluno a caracterizar-se
como um ser subserviente, obediente e destituído de qualquer forma de
expressão. O aluno é reduzido ao espaço de sua carteira, silenciando sua fala,
impedido de expressar suas ideias. A ação docente concentra-se em criar
mecanismos que levem a reproduzir o conhecimento historicamente acumulado e
repassado como verdade absoluta.
Nessa concepção, educação define-se como sendo a
apropriação individual dos valores do conhecimento. O currículo escolar deve
estar organizado de forma a, partindo do mais simples, construir a ciência mais
elaborada. O conhecimento deve se referir apenas ao humano, evitando a
abstração. A educação vem a ser o engajamento na sociedade, ou seja, a
participação em uma ordem real, não apenas numa acumulação de conhecimentos.
O importante é o encadeamento racional desses
conhecimentos numa ordem enciclopédica, de forma sistemática; o conteúdo
das disciplinas é para ser ensinado, não para ser discutido, debatido, ou
modificado através da produção de novos conhecimentos. Esse tipo de procedimento
levava a um processo de ensino-aprendizagem baseado exclusivamente na
exposição, leitura e memorização.
OBS.: No Brasil, o paradigma em questão fundamenta-se na
doutrina liberal, assumindo a escola a característica de reprodução dos
interesses hegemônicos.
1.2
Paradigma Comportamentalista
O Paradigma Comportamentalista descreve o aprendiz
como um indivíduo passível de ser totalmente moldado pelo ambiente. Afirma ser
possível desenvolver qualquer comportamento partindo-se dos estímulos adequados.
De
acordo com o pensamento comportamentalista, o objeto de estudo da psicologia
deve ser a interação entre o organismo e o ambiente. O comportamentalismo tem
as suas raízes nos trabalhos pioneiros de Watson e Pavlov, mas a criação dos princípios e da teoria em si, foi da responsabilidade
do psicólogo americano Burruhs Skinner (1953), que se tornou o representante mais importante da escola comportamental,
ao descrever o condicionamento operante (aquando da sua experiência do rato na caixa de Skinner). O
condicionamento operante explica que quando um comportamento é seguido da apresentação de um reforço
positivo, a freqüência deste comportamento aumenta.
Assentada na transmissão cultural concebe o aluno como um ser
receptivo/passivo, atribuindo um caráter dogmático aos conteúdos e métodos da
educação. Valoriza o aspecto material do ensino. A didática é entendida como um
conjunto de regras e preceitos - matéria a ser ensinada, devendo o aluno
submeter-se aos métodos do professor.
OBS.: No Brasil, o paradigma em questão
fundamenta-se na doutrina liberal, assumindo a escola a característica de
reprodução dos interesses hegemônicos. Tal realidade apresenta-se em forma da Lei de
Reformulação do Ensino de 1º e 2º graus – 5.692/71.
Ressalta-se que a Lei
5.692/71 não pode se caracterizar como uma LDBEN, pois uma Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional versa sobre toda educação, em todos os níveis e
modalidades de ensino, sobre a formação docente, financiamento, planos para a
educação etc. atingindo toda a realidade escolar brasileira, diferente da Lei
5.692/71.
1.3
Paradigma Cognitivista
Considera o aluno o sujeito da aprendizagem. O professor deve dar
condições e estimular os alunos a buscarem por si mesmos conhecimentos e experiências.
O aluno deve aprender fazendo. Dessa forma, o centro da atividade escolar é o
aluno ativo e investigador.
Ao contrário da concepção
empirista/comportamentalista que afirma que o comportamento pode ser modelado,
há várias teorias ditas racionalistas, que se baseiam na premissa de que há um
conhecimento objetivo, que não pode ser atingido só pelos sentidos e pela
experiência, pois a própria percepção depende de estruturas inatas que
condicionam essa experiência. Há várias teorias ditas racionalistas que estão
ligadas à aprendizagem: a principal delas é o cognitivismo.
O cognitivismo baseia-se inicialmente nos trabalhos
de Piaget e no se estudo sobre as fases do desenvolvimento. Para Piaget, o desenvolvimento humano obedece a
certos estágios hierárquicos, que decorrem do nascimento até se consolidarem
por volta dos 16 anos. A ordem destes estádios (ou estágios) seria invariável e
inevitável a todos os indivíduos.
· Estágio sensório-motor (do nascimento aos 2 anos) - a criança desenvolve
um conjunto de "esquemas de ação" sobre o objeto, que lhe permitem
construir um conhecimento físico da realidade. Nesta etapa desenvolve o
conceito de permanência
do objeto, constrói esquemas
sensório-motores e é capaz de fazer imitações, construindo representações
mentais cada vez mais complexas
· Estágio pré-operatório (dos 2 aos 6 anos) - a criança inicia a construção
da relação causa e efeito, bem como das simbolizações. É a chamada idade dos
porquês e do faz-de-conta.
· Estágio operatório-concreto (dos 7 aos 11 anos) - a criança começa a construir
conceitos, através de estruturas lógicas, consolida a conservação de quantidade
e constrói o conceito de número. Seu pensamento apesar de lógico, ainda está
preso aos conceitos concretos, não fazendo ainda abstrações.
· Estágio operatório-formal (dos 11 aos 16 anos) - fase em que o adolescente
constrói o pensamento abstracto, conceitual, conseguindo ter em conta as
hipóteses possíveis, os diferentes pontos de vista e sendo capaz de pensar
cientificamente.
Na concepção piagetiana, a aprendizagem só ocorre mediante a consolidação das estruturas
de pensamento, portanto a aprendizagem sempre se dá após a consolidação do esquema que a suporta, da mesma forma a passagem de um estádio a outro estaria
dependente da consolidação e superação do anterior.
Para a teoria cognitiva interessa como processamos
a informação, o funcionamento da memória, a atenção e a percepção, a motivação
interna, a metacognição e as mudanças conceituais como mudanças estruturais.
Outra contribuição literalmente significativa dada
à Teoria Cognitiva foi feita por Ausubel que estudou a “Aprendizagem
Significativa”. Sua teoria afirma que o processamento de uma informação
recebida é diferente do processamento de uma informação descoberta.
O cognitivismo preocupa-se com a relação entre as
informações, pois isso determina, muitas vezes, como cada pedaço de
conhecimento é armazenado e recuperado.
O
trabalho de Piaget sobre desequilíbrio, assimilação e acomodação foi
desenvolvido pelos cognitivistas como formas de “Mudança Conceitual”. Ausubel
defende a problematização como uma forma de alcançar uma aprendizagem mais
significativa.
As formas de problematização, preocupadas com o
desequilíbrio cognitivo e a formação de novos conceitos e o uso de simulações
que exigem do aluno uma postura investigativa são práticas apoiadas no
paradigma cognitivista.
OBS.: O Brasil dos anos de 1980 é influenciado pelas Propostas
Curriculares. Tem no conjunto de alguns educadores um pensamento progressista,
mas uma escola com prática liberal. Nesse contexto as influências cognitivistas
se apresentam, especialmente, em Piaget.
O aluno ativo que deve aprender a aprender (autonomia em oposição à heteronomia), aprender a fazer (procedimentos que
enriquecem conceitos), aprender a ser
(exigem conteúdos/objetivos atitudinais, enriquecendo conceitos e
procedimentos), aprender a conviver
(fomenta a valorização e respeito à diversidade).
Para Dermeval Saviane, em sua obra História das Ideias Pedagógicas no Brasil,
o Brasil hodierno se apresenta com práticas neoescolanovistas, trazendo do
escolanovismo, como mais um dos tantos movimentos históricos da Escola Nova, o aprender a aprender. Portanto, o fomento
à autonomia da construção do conhecimento não é algo novo.
O fomento ao aprender fundamenta mais tarde os
pilares da educação – UNESCO (anos de 1990) e a própria LDBEN 9.394/96. Que
influenciam o Brasil à abertura para discussão sobre habilidades e
competências, bem como de conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais.
É oportuno destacar as bases de construção do estudo
piagetiano:
- Filosofia: Aristóteles, Kant, Hegel;
- Biologia: Lamarck e Darwin;
-
Psicologia: Köher, Koffka, Wertheimer e Lewin – Gestalt e Baldwin, Hall, Binet,
Claparède, Bovet e Wallon;
- Educação: Rousseau, Pestalozzi, Froebel, Montessori
e John Dewey.
1.4 Paradigma Interacionista.
Há paradigmas que não se apoiam nem na influência
total do ambiente nem na maturação das estruturas internas, mas na interação
entre elas, na modificação permanente tanto do ambiente pelo homem como a modificação
do homem pelo ambiente. As interações sociais na perspectiva sócio histórica
permitem pensar um ser humano em constante construção e transformação que,
mediante as interações sociais, conquista e confere novos significados e
olhares para a vida em sociedade.
Os paradigmas interacionistas mais conhecidos são
os construtivistas e sócio interacionistas. Apesar de Piaget ser considerado
como um pensador que forneceu as bases ao cognitivismo, o próprio processo
desequilíbrio-assimilação acomodação é um processo interativo, na medida em que
é um estímulo externo que gera modificação em estruturas internas, por isso ele
é mais conhecido como Construtivista.
O sócio-interacionismo tem como principal representante
Vygotsky, que baseou sua teoria no Materialismo Histórico e na natureza
dialética e social do conhecimento. Ele destaca a importância dos instrumentos
criados pelo homem e como esses instrumentos modificam o mundo e o próprio
homem e servem como mediadores potencializando o corpo e mente.
FACCI na obra Formação
de Professores: valorização ou esvaziamento do trabalho do professor? – um estudo
crítico-comparativo da teoria do professor reflexivo, do construtivismo e da
psicologia vigotskiana, diz: “Baseado na concepção marxista acerca da
importância da produção de ferramentas no processo histórico de desenvolvimento
do gênero humano, Vigotski enfatiza que o traço fundamental da atividade humana
é a mediação de instrumentos técnicos e psicológicos”.
Vygotsky salienta que as possibilidades que o ambiente
proporciona ao indivíduo são fundamentais para que este se constitua como
sujeito lúcido e consciente, capaz de alterar as circunstâncias em que vive.
Apresenta neste quadro de análise a ontogênese e a filogênese humana.
Os estudos de Vygotsky postulam uma dialética das interações com o outro e com o meio, como
desencadeador do desenvolvimento. Para vygotsky e seus colaboradores, o
desenvolvimento é impulsionado pela linguagem. Eles acreditam que a estrutura
dos estádios descrita por Piaget seja correta, porém diferem na concepção de
sua dinâmica evolutiva. Enquanto Piaget defende que a estruturação do organismo
precede o desenvolvimento, para Vygotsky é o próprio processo de aprender que
gera e promove o desenvolvimento das estruturas mentais superiores.
FPS- Funções psicológicas superiores
Regulam o comportamento do homem e o diferenciam dos animais por meio da tomada de consciência. Estruturam-se no período de transição para a adolescência, à medida que se formam novas e complexas combinações de funções elementares mediante a aparição de várias sínteses complexas.
Zona de desenvolvimento proximal
Um ponto central da teoria vygotskyana é o conceito
de ZDP, que afirma que a
aprendizagem acontece no intervalo entre o conhecimento real e o conhecimento
potencial. Em outras palavras, a ZDP é a distância existente entre o que o
sujeito já sabe e aquilo que ele tem potencialidade de aprender. Seria neste
campo que a educação atuaria, estimulando a aquisição do potencial, partindo do
conhecimento da ZDP do aprendiz, para assim intervir. O conhecimento potencial,
ao ser alcançado, passa a ser o conhecimento real e a ZDP redefinida a partir
do que seria o novo potencial.
Interacionismo e desenvolvimento
Nessa concepção, as interações têm um papel crucial
e determinante. Para definir o conhecimento real, Vygotsky sugere que se avalie
o que o sujeito é capaz de fazer sozinho, e o potencial aquilo que ele consegue
fazer com ajuda de outro sujeito. Assim, determina-se a ZDP e o nível de
riqueza e diversidade das interações determinará o potencial atingido. Quanto
mais ricas as interações, maior e mais sofisticado será o desenvolvimento.
O aprendizado, de acordo com Vygotsky se dará
quando houver a distância entre aquilo que a criança sabe fazer sozinha (o desenvolvimento
real) e o que é capaz de realizar com ajuda de alguém mais experiente (o desenvolvimento
potencial). Dessa forma, o que é zona de desenvolvimento proximal hoje vira
nível de desenvolvimento real amanhã.
Para o sociointeracionismo, o desenvolvimento se
produz não apenas por meio da soma de experiências, mas, sobretudo, nas
vivências das diferenças. O aluno e aluna aprendem imitando, concordando,
fazendo oposição, estabelecendo analogias, internalizando símbolos e significados,
tudo isto num ambiente social e historicamente localizado.
OBS.: O Sociointeracionismo também empresta suas bases
teóricas à LDBEN 9.394/96, em um Brasil marcadamente neoliberal.
Ressalta-se que os
Referenciais Curriculares da Educação Infantil e os Parâmetros Curriculares
Nacionais do Ensino Fundamental, bem como as Diretrizes Curriculares Nacionais
se fundamentam no Interacionismo.
O Construtivismo traz
factualmente a característica interdisciplinar para a escola brasileira do
século XX – 1980/1990. Ainda que tal realidade comece a ser formulada no espaço
sistemático formador nos anos de 1960/1970.
Dois exemplos de muitos que a escola brasileira nos reserva, considerando
tal afirmativa, tem-se para o ensino de MTM: Movimento Matemática Moderna e
para o ensino de CNC: Ciência Integrada, haja vista tentar-se no período uma
prática curricular integradora.
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