sexta-feira, 24 de julho de 2015

PARADIGMAS EDUCACIONAIS



PARADIGMAS EDUCACIONAIS

1.1 Paradigma Tradicional ou Conservador
O paradigma tradicional leva o aluno a caracterizar-se como um ser subserviente, obediente e destituído de qualquer forma de expressão. O aluno é reduzido ao espaço de sua carteira, silenciando sua fala, impedido de expressar suas ideias. A ação docente concentra-se em criar mecanismos que levem a reproduzir o conhecimento historicamente acumulado e repassado como verdade absoluta.
Nessa concepção, educação define-se como sendo a apropriação individual dos valores do conhecimento. O currículo escolar deve estar organizado de forma a, partindo do mais simples, construir a ciência mais elaborada. O conhecimento deve se referir apenas ao humano, evitando a abstração. A educação vem a ser o engajamento na sociedade, ou seja, a participação em uma ordem real, não apenas numa acumulação de conhecimentos.
O importante é o encadeamento racional desses conhecimentos numa ordem enciclopédica, de forma sistemática; o conteúdo das disciplinas é para ser ensinado, não para ser discutido, debatido, ou modificado através da produção de novos conhecimentos. Esse tipo de procedimento levava a um processo de ensino-aprendizagem baseado exclusivamente na exposição, leitura e memorização.

OBS.: No Brasil, o paradigma em questão fundamenta-se na doutrina liberal, assumindo a escola a característica de reprodução dos interesses hegemônicos.

 1.2 Paradigma Comportamentalista

O Paradigma Comportamentalista descreve o aprendiz como um indivíduo passível de ser totalmente moldado pelo ambiente. Afirma ser possível desenvolver qualquer comportamento partindo-se dos estímulos adequados.
De acordo com o pensamento comportamentalista, o objeto de estudo da psicologia deve ser a interação entre o organismo e o ambiente. O comportamentalismo tem as suas raízes nos trabalhos pioneiros de Watson e Pavlov, mas a criação dos princípios e da teoria em si, foi da responsabilidade do psicólogo americano Burruhs Skinner (1953), que se tornou o representante mais importante da escola comportamental, ao descrever o condicionamento operante (aquando da sua experiência do rato na caixa de Skinner). O condicionamento operante explica que quando um comportamento é seguido da apresentação de um reforço positivo, a freqüência deste comportamento aumenta.
Assentada na transmissão cultural concebe o aluno como um ser receptivo/passivo, atribuindo um caráter dogmático aos conteúdos e métodos da educação. Valoriza o aspecto material do ensino. A didática é entendida como um conjunto de regras e preceitos - matéria a ser ensinada, devendo o aluno submeter-se aos métodos do professor.

OBS.: No Brasil, o paradigma em questão fundamenta-se na doutrina liberal, assumindo a escola a característica de reprodução dos interesses hegemônicos. Tal realidade apresenta-se em forma da Lei de Reformulação do Ensino de 1º e 2º graus – 5.692/71.
            Ressalta-se que a Lei 5.692/71 não pode se caracterizar como uma LDBEN, pois uma Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional versa sobre toda educação, em todos os níveis e modalidades de ensino, sobre a formação docente, financiamento, planos para a educação etc. atingindo toda a realidade escolar brasileira, diferente da Lei 5.692/71.

 1.3 Paradigma Cognitivista

Considera o aluno o sujeito da aprendizagem. O professor deve dar condições e estimular os alunos a buscarem por si mesmos conhecimentos e experiências. O aluno deve aprender fazendo. Dessa forma, o centro da atividade escolar é o aluno ativo e investigador.
Ao contrário da concepção empirista/comportamentalista que afirma que o comportamento pode ser modelado, há várias teorias ditas racionalistas, que se baseiam na premissa de que há um conhecimento objetivo, que não pode ser atingido só pelos sentidos e pela experiência, pois a própria percepção depende de estruturas inatas que condicionam essa experiência. Há várias teorias ditas racionalistas que estão ligadas à aprendizagem: a principal delas é o cognitivismo.
O cognitivismo baseia-se inicialmente nos trabalhos de Piaget e no se estudo sobre as fases do desenvolvimento. Para Piaget, o desenvolvimento humano obedece a certos estágios hierárquicos, que decorrem do nascimento até se consolidarem por volta dos 16 anos. A ordem destes estádios (ou estágios) seria invariável e inevitável a todos os indivíduos.

·  Estágio sensório-motor (do nascimento aos 2 anos) - a criança desenvolve um conjunto de "esquemas de ação" sobre o objeto, que lhe permitem construir um conhecimento físico da realidade. Nesta etapa desenvolve o conceito de permanência do objeto, constrói esquemas sensório-motores e é capaz de fazer imitações, construindo representações mentais cada vez mais complexas
·  Estágio pré-operatório (dos 2 aos 6 anos) - a criança inicia a construção da relação causa e efeito, bem como das simbolizações. É a chamada idade dos porquês e do faz-de-conta.
·  Estágio operatório-concreto (dos 7 aos 11 anos) - a criança começa a construir conceitos, através de estruturas lógicas, consolida a conservação de quantidade e constrói o conceito de número. Seu pensamento apesar de lógico, ainda está preso aos conceitos concretos, não fazendo ainda abstrações.
·  Estágio operatório-formal (dos 11 aos 16 anos) - fase em que o adolescente constrói o pensamento abstracto, conceitual, conseguindo ter em conta as hipóteses possíveis, os diferentes pontos de vista e sendo capaz de pensar cientificamente.
Na concepção piagetiana, a aprendizagem só ocorre mediante a consolidação das estruturas de pensamento, portanto a aprendizagem sempre se dá após a consolidação do esquema que a suporta, da mesma forma a passagem de um estádio a outro estaria dependente da consolidação e superação do anterior.
Para a teoria cognitiva interessa como processamos a informação, o funcionamento da memória, a atenção e a percepção, a motivação interna, a metacognição e as mudanças conceituais como mudanças estruturais.
Outra contribuição literalmente significativa dada à Teoria Cognitiva foi feita por Ausubel que estudou a “Aprendizagem Significativa”. Sua teoria afirma que o processamento de uma informação recebida é diferente do processamento de uma informação descoberta.
O cognitivismo preocupa-se com a relação entre as informações, pois isso determina, muitas vezes, como cada pedaço de conhecimento é armazenado e recuperado.
   O trabalho de Piaget sobre desequilíbrio, assimilação e acomodação foi desenvolvido pelos cognitivistas como formas de “Mudança Conceitual”. Ausubel defende a problematização como uma forma de alcançar uma aprendizagem mais significativa.
As formas de problematização, preocupadas com o desequilíbrio cognitivo e a formação de novos conceitos e o uso de simulações que exigem do aluno uma postura investigativa são práticas apoiadas no paradigma cognitivista.

OBS.: O Brasil dos anos de 1980 é influenciado pelas Propostas Curriculares. Tem no conjunto de alguns educadores um pensamento progressista, mas uma escola com prática liberal. Nesse contexto as influências cognitivistas se apresentam, especialmente, em Piaget.
O aluno ativo que deve aprender a aprender (autonomia em oposição à heteronomia), aprender a fazer (procedimentos que enriquecem conceitos), aprender a ser (exigem conteúdos/objetivos atitudinais, enriquecendo conceitos e procedimentos), aprender a conviver (fomenta a valorização e respeito à diversidade).
Para Dermeval Saviane, em sua obra História das Ideias Pedagógicas no Brasil, o Brasil hodierno se apresenta com práticas neoescolanovistas, trazendo do escolanovismo, como mais um dos tantos movimentos históricos da Escola Nova, o aprender a aprender. Portanto, o fomento à autonomia da construção do conhecimento não é algo novo.
O fomento ao aprender fundamenta mais tarde os pilares da educação – UNESCO (anos de 1990) e a própria LDBEN 9.394/96. Que influenciam o Brasil à abertura para discussão sobre habilidades e competências, bem como de conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais.
É oportuno destacar as bases de construção do estudo piagetiano:
- Filosofia: Aristóteles, Kant, Hegel;
- Biologia: Lamarck e Darwin;
- Psicologia: Köher, Koffka, Wertheimer e Lewin – Gestalt e Baldwin, Hall, Binet, Claparède, Bovet e Wallon;
- Educação: Rousseau, Pestalozzi, Froebel, Montessori e John Dewey.
           
1.4 Paradigma Interacionista.

Há paradigmas que não se apoiam nem na influência total do ambiente nem na maturação das estruturas internas, mas na interação entre elas, na modificação permanente tanto do ambiente pelo homem como a modificação do homem pelo ambiente. As interações sociais na perspectiva sócio histórica permitem pensar um ser humano em constante construção e transformação que, mediante as interações sociais, conquista e confere novos significados e olhares para a vida em sociedade.
Os paradigmas interacionistas mais conhecidos são os construtivistas e sócio interacionistas. Apesar de Piaget ser considerado como um pensador que forneceu as bases ao cognitivismo, o próprio processo desequilíbrio-assimilação acomodação é um processo interativo, na medida em que é um estímulo externo que gera modificação em estruturas internas, por isso ele é mais conhecido como Construtivista.
O sócio-interacionismo tem como principal representante Vygotsky, que baseou sua teoria no Materialismo Histórico e na natureza dialética e social do conhecimento. Ele destaca a importância dos instrumentos criados pelo homem e como esses instrumentos modificam o mundo e o próprio homem e servem como mediadores potencializando o corpo e mente.
FACCI na obra Formação de Professores: valorização ou esvaziamento do trabalho do professor? – um estudo crítico-comparativo da teoria do professor reflexivo, do construtivismo e da psicologia vigotskiana, diz: “Baseado na concepção marxista acerca da importância da produção de ferramentas no processo histórico de desenvolvimento do gênero humano, Vigotski enfatiza que o traço fundamental da atividade humana é a mediação de instrumentos técnicos e psicológicos”.
Vygotsky salienta que as possibilidades que o ambiente proporciona ao indivíduo são fundamentais para que este se constitua como sujeito lúcido e consciente, capaz de alterar as circunstâncias em que vive. Apresenta neste quadro de análise a ontogênese e a filogênese humana.
Os estudos de Vygotsky postulam uma dialética das interações com o outro e com o meio, como desencadeador do desenvolvimento. Para vygotsky e seus colaboradores, o desenvolvimento é impulsionado pela linguagem. Eles acreditam que a estrutura dos estádios descrita por Piaget seja correta, porém diferem na concepção de sua dinâmica evolutiva. Enquanto Piaget defende que a estruturação do organismo precede o desenvolvimento, para Vygotsky é o próprio processo de aprender que gera e promove o desenvolvimento das estruturas mentais superiores.

FPS- Funções psicológicas superiores

            Regulam o comportamento do homem e o diferenciam dos animais por meio da tomada de consciência. Estruturam-se no período de transição para a adolescência, à medida que se formam novas e complexas combinações de funções elementares mediante a aparição de várias sínteses complexas.

 

Zona de desenvolvimento proximal

Um ponto central da teoria vygotskyana é o conceito de ZDP, que afirma que a aprendizagem acontece no intervalo entre o conhecimento real e o conhecimento potencial. Em outras palavras, a ZDP é a distância existente entre o que o sujeito já sabe e aquilo que ele tem potencialidade de aprender. Seria neste campo que a educação atuaria, estimulando a aquisição do potencial, partindo do conhecimento da ZDP do aprendiz, para assim intervir. O conhecimento potencial, ao ser alcançado, passa a ser o conhecimento real e a ZDP redefinida a partir do que seria o novo potencial.

Interacionismo e desenvolvimento

Nessa concepção, as interações têm um papel crucial e determinante. Para definir o conhecimento real, Vygotsky sugere que se avalie o que o sujeito é capaz de fazer sozinho, e o potencial aquilo que ele consegue fazer com ajuda de outro sujeito. Assim, determina-se a ZDP e o nível de riqueza e diversidade das interações determinará o potencial atingido. Quanto mais ricas as interações, maior e mais sofisticado será o desenvolvimento.
O aprendizado, de acordo com Vygotsky se dará quando houver a distância entre aquilo que a criança sabe fazer sozinha (o desenvolvimento real) e o que é capaz de realizar com ajuda de alguém mais experiente (o desenvolvimento potencial). Dessa forma, o que é zona de desenvolvimento proximal hoje vira nível de desenvolvimento real amanhã.
Para o sociointeracionismo, o desenvolvimento se produz não apenas por meio da soma de experiências, mas, sobretudo, nas vivências das diferenças. O aluno e aluna aprendem imitando, concordando, fazendo oposição, estabelecendo analogias, internalizando símbolos e significados, tudo isto num ambiente social e historicamente localizado.

OBS.: O Sociointeracionismo também empresta suas bases teóricas à LDBEN 9.394/96, em um Brasil marcadamente neoliberal.
Ressalta-se que os Referenciais Curriculares da Educação Infantil e os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental, bem como as Diretrizes Curriculares Nacionais se fundamentam no Interacionismo.
O Construtivismo traz factualmente a característica interdisciplinar para a escola brasileira do século XX – 1980/1990. Ainda que tal realidade comece a ser formulada no espaço sistemático formador nos anos de 1960/1970.
Dois exemplos de muitos que a escola brasileira nos reserva, considerando tal afirmativa, tem-se para o ensino de MTM: Movimento Matemática Moderna e para o ensino de CNC: Ciência Integrada, haja vista tentar-se no período uma prática curricular integradora.

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