quinta-feira, 5 de abril de 2012

AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM COMO PRÁTICA DE INVESTIGAÇÃO PEDAGÓGICA


AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM COMO PRÁTICA DE INVESTIGAÇÃO PEDAGÓGICA

Silvana Maria Guimarães Machado
*Mestre em Educação

Avaliação da Aprendizagem ainda é um tema muito discutido por educadores em todo Brasil, contudo, há um consenso geral que a mesma constitui-se um processo importante para condução do processo de ensino na escola.

Processos cognitivos e sociais que permeiam a aprendizagem

Antes de aprofundarmos a discussão sobre a prática avaliativa é imprescindível uma breve alusão à construção teórica sobre os procedimentos cognitivos e sociais que elaboramos quando aprendemos algo novo. Pois como Vasconcelos afirma:

“É necessário mudar tanto a concepção quanto a prática, o que significa, por um processo de aproximações sucessivas, construírem a práxis transformadora. A práxis, é essa articulação viva entre ação e reflexão; é a ação informada pela reflexão e a reflexão desafiada pela ação”.

VASCONCELOS, 1989

O primeiro ponto de reflexão que devemos estar atentos é o fato de que o currículo e a avaliação estão intrinsecamente relacionados com a forma de conceber a aprendizagem. Nesse sentido, Vygotsky (1984) muito contribui para o entendimento da aprendizagem, como se dá o acesso a conhecimentos novos numa perspectiva que considera o desenvolvimento do ser social como resultado do processo sócio-histórico numa interação multifacetada do sujeito com o meio e com outros sujeitos.
Lev S. Vygotsky (1896-1934) considera fundamental no processo da aquisição de um novo conhecimento a categoria da mediação, para ele, o homem, enquanto sujeito histórico e interativo não tem acesso direto ao conhecimento, mas um acesso mediado, através de recortes do real por meio dos sistemas simbólicos a que tem contato. Desta forma, a ênfase recai sobre a construção do conhecimento como uma interação dialética mediada por várias relações. Na educação formal, o professor, enquanto mediador neste processo age facilitando ao aluno a chegada ao conhecimento.
A idéia de mediação de Vygotsky coloca o indivíduo como determinado e determinante no mundo em que vive na medida em que  age sobre a realidade transformando-a por meio da interação.
Os meios/ circunstâncias/pessoas que mediam a relação do homem com o mundo se constituem como “ferramentas auxiliares” da atividade humana. O homem pode criar “ferramentas” na condução da aquisição de aprendizagens, num processo de “internalização” em que uma atividade externa transforma-se em atividade interna, o “interpessoal”  que se torna, com o tempo,  “intrapessoal”.
 Vygotsky (1984) quando cita as funções mentais humanas, refere-se aos processos de: pensamento, memória, percepção e atenção. Estas funções mentais estão relacionadas ao processo de aquisição de novos conhecimentos, passando necessariamente por pré-requisitos básicos como a motivação, interesse, necessidade, impulso, afeto e emoção. Como essencial ao processo de desenvolvimento coloca-se a interação social e a linguagem enquanto sistema simbólico de valor cultural e social.
Nesta concepção existem dois níveis de desenvolvimento identificados por Vygotsky: um real - já internalizado e adquirido, e um potencial - a capacidade de aprender do sujeito. A distância entre o desenvolvimento real e o potencial é chamada de zona de desenvolvimento proximal, ou seja, esta é a “distância” entre o que o indivíduo pode fazer com autonomia e o que ele será capaz de fazer por meio das interações de outras pessoas, interações estas, na escola, intencionais e direcionadas.
Essa teoria deixa clara a necessidade de investigação com centralidade no sujeito, visto que, as ações de mediação devem ser diversificadas, levando em consideração que, para cada um, há uma zona de desenvolvimento proximal diferenciada. Mesmo o conhecimento real não é o mesmo para todos se considerarmos que há vários estratos e nuanças culturais numa mesma comunidade.
Assim, o processo de aprendizagem constitui-se em um sistema de trocas com outros sujeitos, com a cultura e com o próprio sujeito. Deste desenvolvimento surge a formação da própria consciência.  Trata-se de um processo, que translada do plano social - relações interpessoais, para o plano individual interno - relações intrapessoais. Assim, a escola, enquanto lugar de intervenção pedagógica intencional e diretiva desencadeia o processo ensino-aprendizagem de forma sistemática. O professor tem a responsabilidade direta de atuar na mediação deste processo, ou mesmo, realizar inferências na zona de desenvolvimento proximal dos alunos.
A análise da teoria sócio-histórica da aprendizagem deixa claro que temos vários mediadores durante a vida, sob várias circunstâncias culturais e sociais que vão moldando o nosso desenvolvimento enquanto sujeitos de uma realidade objetiva. No entanto, a escola é o ambiente cultural, que intervém de forma intencional e deliberativa na formação humana e na apreensão de conceitos científicos (expresso em currículos) como parte de um sistema organizado de conhecimentos.
Nesta concepção algumas considerações são de extrema relevância:
·        O aluno não é apenas o que aprende, mas aquele que se relaciona e, nesta ação interativa, junto ao outro, participa de toda uma produção social e cultural.
·        O sujeito não é apenas ativo, é interativo, pois constrói conhecimentos em relação intra e interpessoais.
·        O educador, portanto, constitui-se como orientador dos alunos com a missão de transformar o desenvolvimento potencial em desenvolvimento real.
·        O ensino parte do grupo para o indivíduo, o que torna o ambiente escolar importante na internalização das atividades cognitivas.
·         O desenvolvimento mental só pode realizar-se por meio do aprendizado, que por sua vez depende das interações sócio-históricas do indivíduo.
Orientar o processo ensino aprendizagem, atuar na mediação ao conhecimento, é anteceder ao desenvolvimento da criança, vislumbrar na potencialidade o caminho a ser construído numa salutar interatividade. A aprendizagem centra-se no que pode “vir a ser desenvolvido” e não apenas nas dificuldades que temos hoje, esta última é apenas ponto de partida.

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