AVALIAÇÃO
DA APRENDIZAGEM COMO PRÁTICA DE INVESTIGAÇÃO PEDAGÓGICA
Silvana Maria
Guimarães Machado
*Mestre em
Educação
Avaliação
da Aprendizagem ainda é um tema muito discutido por educadores em todo Brasil,
contudo, há um consenso geral que a mesma constitui-se um processo importante para
condução do processo de ensino na escola.
Processos
cognitivos e sociais que permeiam a aprendizagem
Antes de
aprofundarmos a discussão sobre a prática avaliativa é imprescindível uma breve
alusão à construção teórica sobre os procedimentos cognitivos e sociais que
elaboramos quando aprendemos algo novo. Pois como Vasconcelos afirma:
“É
necessário mudar tanto a concepção quanto a prática, o que significa, por um processo
de aproximações sucessivas, construírem a práxis transformadora. A práxis, é
essa articulação viva entre ação e reflexão; é a ação informada pela reflexão e
a reflexão desafiada pela ação”.
VASCONCELOS, 1989
O primeiro
ponto de reflexão que devemos estar atentos é o fato de que o currículo e a
avaliação estão intrinsecamente relacionados com a forma de conceber a
aprendizagem. Nesse sentido, Vygotsky (1984) muito contribui para o
entendimento da aprendizagem, como se dá o acesso a conhecimentos novos numa
perspectiva que considera o desenvolvimento do ser social como resultado do
processo sócio-histórico numa interação multifacetada do sujeito com o meio e
com outros sujeitos.
Lev
S. Vygotsky (1896-1934) considera fundamental no processo da aquisição de um
novo conhecimento a categoria da mediação, para ele, o homem, enquanto sujeito
histórico e interativo não tem acesso direto ao conhecimento, mas um acesso
mediado, através de recortes do real por meio dos sistemas simbólicos a que tem
contato. Desta forma, a ênfase recai sobre a construção do conhecimento como
uma interação dialética mediada por várias relações. Na educação formal, o
professor, enquanto mediador neste processo age facilitando ao aluno a chegada
ao conhecimento.
A idéia de
mediação de Vygotsky coloca o indivíduo como determinado e determinante no
mundo em que vive na medida em que age
sobre a realidade transformando-a por meio da interação.
Os meios/
circunstâncias/pessoas que mediam a relação do homem com o mundo se constituem
como “ferramentas auxiliares” da atividade humana. O homem pode criar
“ferramentas” na condução da aquisição de aprendizagens, num processo de “internalização” em que uma atividade
externa transforma-se em atividade interna, o “interpessoal” que se torna,
com o tempo, “intrapessoal”.
Vygotsky (1984) quando cita as funções mentais
humanas, refere-se aos processos de: pensamento,
memória, percepção e atenção. Estas funções mentais estão relacionadas ao
processo de aquisição de novos conhecimentos, passando necessariamente por
pré-requisitos básicos como a motivação,
interesse, necessidade, impulso, afeto e emoção. Como essencial ao processo
de desenvolvimento coloca-se a interação social e a linguagem enquanto sistema
simbólico de valor cultural e social.
Nesta
concepção existem dois níveis de desenvolvimento identificados por Vygotsky: um
real - já internalizado e adquirido,
e um potencial - a capacidade de
aprender do sujeito. A distância entre o desenvolvimento real e o potencial é
chamada de zona de desenvolvimento proximal, ou seja, esta é a “distância”
entre o que o indivíduo pode fazer com autonomia e o que ele será capaz de
fazer por meio das interações de outras pessoas, interações estas, na escola,
intencionais e direcionadas.
Essa
teoria deixa clara a necessidade de investigação com centralidade no sujeito,
visto que, as ações de mediação devem ser diversificadas, levando em
consideração que, para cada um, há uma zona de desenvolvimento proximal
diferenciada. Mesmo o conhecimento real não é o mesmo para todos se
considerarmos que há vários estratos e nuanças culturais numa mesma comunidade.
Assim, o
processo de aprendizagem constitui-se em um sistema de trocas com outros
sujeitos, com a cultura e com o próprio sujeito. Deste desenvolvimento surge a
formação da própria consciência.
Trata-se de um processo, que translada do plano social - relações
interpessoais, para o plano individual interno - relações intrapessoais. Assim,
a escola, enquanto lugar de intervenção pedagógica intencional e diretiva
desencadeia o processo ensino-aprendizagem de forma sistemática. O professor
tem a responsabilidade direta de atuar na mediação deste processo, ou mesmo,
realizar inferências na zona de desenvolvimento proximal dos alunos.
A análise
da teoria sócio-histórica da aprendizagem deixa claro que temos vários
mediadores durante a vida, sob várias circunstâncias culturais e sociais que
vão moldando o nosso desenvolvimento enquanto sujeitos de uma realidade
objetiva. No entanto, a escola é o ambiente cultural, que intervém de forma
intencional e deliberativa na formação humana e na apreensão de conceitos
científicos (expresso em currículos) como parte de um sistema organizado de
conhecimentos.
Nesta
concepção algumas considerações são de extrema relevância:
·
O
aluno não é apenas o que aprende, mas aquele que se relaciona e, nesta ação
interativa, junto ao outro, participa de toda uma produção social e cultural.
·
O
sujeito não é apenas ativo, é interativo, pois constrói conhecimentos em
relação intra e interpessoais.
·
O
educador, portanto, constitui-se como orientador dos alunos com a missão de
transformar o desenvolvimento potencial em desenvolvimento real.
·
O
ensino parte do grupo para o indivíduo, o que torna o ambiente escolar
importante na internalização das atividades cognitivas.
·
O desenvolvimento mental só pode realizar-se
por meio do aprendizado, que por sua vez depende das interações
sócio-históricas do indivíduo.
Orientar o
processo ensino aprendizagem, atuar na mediação ao conhecimento, é anteceder ao
desenvolvimento da criança, vislumbrar na potencialidade o caminho a ser
construído numa salutar interatividade. A aprendizagem centra-se no que pode
“vir a ser desenvolvido” e não apenas nas dificuldades que temos hoje, esta
última é apenas ponto de partida.