quarta-feira, 23 de abril de 2014

RESUMO DO TEXTO FILOSOFIA DA PRAXIS - VAZQUEZ



VAZQUEZ, Adolfo Sanches. Filosofia da Praxis - Unidade entre Teoria e Prática. 2ª ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977, p. 209 - 243


            O autor inicia o texto,  enfatizando que a teoria e a prática são indissociáveis, diferentes, mas não opostas, a não ser  que a relação entre elas seja falsa. O senso comum baseia-se na prática negando a  teoria, no lugar desta, há o ponto de vista fluido facilmente distorcido e legitimado pela consciência ordinária. “O ponto de vista do senso comum  é a praticismo, prática sem teoria, ou com o mínimo dela”: 211
            O pragmatismo é um pensamento filosófico, que concebe a relação entre teoria e prática a nível de uma doutrina filosófica. “ O pragmatismo reduz o prático ao utilitário, com que acaba por dissolver o teórico  do útil.”:212
            Segundo o autor, alguns acusam o marxismo de usar a concepção pragmática, o que é um grande equívoco. Vejamos alguns exemplos  conceituais que demarcam bem a diferença entre o marxismo e o pragmatismo:
CONCEITOS
PRAGMATISMO
MARXISMO
Unidade  ou função prática social da ciência.
Base no interesse individual e egoísta.
Sentido de utilidade social com vistas à transformação da realidade.
Verdade e critérios de verdade.
Verdade é o que é útil e é resultante da prática individual, os  critérios são específicos.
Verdade é a  reprodução espiritual da realidade, a prática concebida como atividade material, transformadora e social.
Prática
Ação objetiva voltada para os interesses do indivíduo. Produção de uma realidade  material.
Ação material, objetiva, transformadora que atende aos interesses sociais. Desenvolvimento incessante da atividade humana.

            Outra discussão impõe-se: o entendimento que a teoria é onipotente em sua relação com a praxis, sendo independente e soberana, podendo inclusive cair em degradação a partir do contato com a realidade. Segundo o autor,  teoria e prática são componentes de uma só unidade, sendo simultaneamente autônomas e dependentes  entre si. Esta relação pode ser observada num plano histórico social e em determinadas atividades de produção num plano prático.
            Retomando Engels, o autor afirma que a prática é o fundamento da teoria, pois a partir  da transformação da natureza pelo homem a inteligência humana foi crescendo e desenvolvendo. A relação prática que o homem estabelece com o meio obriga-o a pensar sobre a sua prática, seus problemas e soluções.
            A exemplo que as teorias se desenvolvem a partir da necessidade de produção humana, o autor cita várias ciências pontuando seu desenvolvimento  mediante as demandas históricas e sociais: a física, a química e as matemáticas.  Tal evolução também decorre do inter-relacionamento das ciências afins , como afirma o autor:
“Em suma, de forma mais ou menos direta,  a produção através do processo técnico por ela exigido, não cessou de impulsionar as matemáticas,  estas são um poderoso estímulo e fonte de desenvolvimento nas exigências da física, particularmente da quântica, que a cada momento a ela recorre para descrever e explicar suas descobertas”:220

Considerando as exigências da prática moderna há uma tendência ao desenvolvimento da teoria. Segundo o autor, a ciência não só serve a produção mas está em suas entranhas, nas máquinas, na automação e na tecnologia. Nesse sentido, “teoria e prática se  unem e se fundem mutuamente”:223
            A exemplo da unidade entre teoria e a prática observa-se a própria teoria de Marx e Engels  quando retoma a prática social como condição para o nascimento e desenvolvimento teórico. “A teoria da revolução surge em estreita relação  com a atividade prática  e se enriquece com novas soluções à medida em que se enriquece  a luta revolucionária do proletariado.”:223
            O autor passa a uma análise da Teoria marxista, sua evolução  tendo como referência a prática social, no intuito de  elaborar rigorosamente sua teoria da revolução. A priori faz um balanço da prática revolucionária, para a seguir dedicar-se a abordagem de  problemas relacionados à revolução, como: estado, luta de classes, etc. Seu interesse teórico centraliza-se no modo produção capitalista e suas contradições, para então, dedicar-se às obras econômicas numa investigação das estruturas de  formação econômico-social  do capital.  A obra de Marx  O Capital distingue-se de todas as teorias econômicas por seu caráter científico  identificar-se com a  praxis revolucionária. “O Capital  começa com a análise profunda da mercadoria e termina com as classes sociais, ainda que Marx só tenha podido dedicar a  esta análise vinte linhas de um capítulo que não pôde escrever.”: 227
            Um pensamento interessante , é que a prática sempre surpreende e, por vezes,   traz experiências novas que rompem limites teóricos, daí o enriquecimento dinâmico da teoria. É o que acontece quando Lênin amplia concepções marxistas sobre a teoria da revolução. “A teoria revolucionária  não se desenvolve em prol da teoria mesma, e sim em nome da praxis; é uma teoria  baseada na prática que tende, por sua vez,  a resolver contradições que se apresentam real e efetivamente.”:230. A teoria, no entanto, extrapola os limites da realidade da praxis, tem uma relativa autonomia pois, é  capaz de orientar práticas que não existem materialmente, através da finalidade – “antecipação ideal da prática que ainda não existe”:233.
            Segundo o  autor, a prática tem sua racionalidade, mas é exatamente a teoria que a explicita: revelando-a. A prática tem papel determinante, como fundamento, finalidade e critério. O papel da teoria  torna-se importante pois é em relação com a teoria que a praxis é compreendida. Entre teoria e prática deve haver unidade e não identidade, uma relação de autonomia é condição indispensável para que “ a teoria sirva a prática, já que implica na exigência de que a teoria não se limite a ir a reboque da prática, e sim que, em maior ou menor grau, se antecipe a própria prática”:238. Mesmo esta autonomia  tem graus de relatividade pois ambas são dependentes sob o ponto de vista do condicionamento.
“A praxis é, na verdade, atividade teórico-prática, ou seja,  tem um lado ideal, teórico e um lado material, propriamente prático com a particularidade de que só artificialmente, por um processo de abstração, podemos separar, isolar um fato.”:  241
            A prática tem uma  racionalidade oculta, necessitando de um olhar especial.  O autor coloca a necessidade do domínio de uma “linguagem conceitual correspondente” (235), para o entendimento do fenômeno científico. A ciência proporciona a chave para o entendimento de sua própria prática experimental.
            Numa sociedade capitalista, que se baseia no falseamento da verdade no âmbito da prática material, o conhecimento científico tem extremo valor  revelador. Tal premissa abre o debate para importância da teoria no socialismo ou  no comunismo, já que nestes modelos a produção pressupõe uma transparência nas relações de produção. O autor afirma que a teoria será sempre necessária, “a prática não fala por si mesma e exige uma relação teórica com ela: a relação da práxis”:237
            A praxis implica na subjetividade e objetividade,  pois “ da mesma maneira que  a atividade teórica, subjetiva, por si só, não é a praxis, tão pouco o é uma atividade material do indivíduo, ainda que possa desembocar na produção de um objeto, quando lhe falta o momento subjetivo, teórico, representado pela consciência dessa atividade”:241
            A consciência tem por sua vez, que introjetar certo dinamismo no processo de produção para alcançar o plano ideal proposto ou  modifica-lo ( pois sempre o real, por suas múltiplas determinações, interfere no plano ideal). O produto real é  o fim do processo interativo entre o ideal e o plano prático.
            O que nos parece  marcante no texto, é que a teoria parte da prática e a  ela retorna com um conhecimento elaborado concretamente. Tal movimento é dinâmico, pois na  ação de retornar à prática, esta já não é mais a mesma, a teoria então modifica-se, daí a importância de sua característica prognóstica. A praxis é exatamente este todo dialético teórico-prático que não pode ser dissociado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário