VAZQUEZ,
Adolfo Sanches. Filosofia da Praxis -
Unidade entre Teoria e Prática. 2ª ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977,
p. 209 - 243
O
autor inicia o texto, enfatizando que a
teoria e a prática são indissociáveis, diferentes, mas não opostas, a não
ser que a relação entre elas seja falsa.
O senso comum baseia-se na prática negando a
teoria, no lugar desta, há o ponto de vista fluido facilmente distorcido
e legitimado pela consciência ordinária.
“O ponto de vista do senso comum é a
praticismo, prática sem teoria, ou com o mínimo dela”: 211
O
pragmatismo é um pensamento filosófico, que concebe a relação entre teoria e
prática a nível de uma doutrina filosófica. “
O pragmatismo reduz o prático ao utilitário, com que acaba por dissolver o
teórico do útil.”:212
Segundo
o autor, alguns acusam o marxismo de usar a concepção pragmática, o que é um
grande equívoco. Vejamos alguns exemplos
conceituais que demarcam bem a diferença entre o marxismo e o
pragmatismo:
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CONCEITOS
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PRAGMATISMO
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MARXISMO
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Unidade ou
função prática social da ciência.
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Base no interesse
individual e egoísta.
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Sentido de utilidade
social com vistas à transformação da realidade.
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Verdade e critérios de verdade.
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Verdade é o que é útil e
é resultante da prática individual, os
critérios são específicos.
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Verdade é a reprodução espiritual da realidade, a
prática concebida como atividade material, transformadora e social.
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Prática
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Ação objetiva voltada
para os interesses do indivíduo. Produção de uma realidade material.
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Ação material, objetiva,
transformadora que atende aos interesses sociais. Desenvolvimento incessante
da atividade humana.
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Outra
discussão impõe-se: o entendimento que a teoria é onipotente em sua relação com
a praxis, sendo independente e soberana, podendo inclusive cair em degradação a
partir do contato com a realidade. Segundo o autor, teoria e prática são componentes de uma só
unidade, sendo simultaneamente autônomas e dependentes entre si. Esta relação pode ser observada num
plano histórico social e em determinadas atividades de produção num plano prático.
Retomando
Engels, o autor afirma que a prática é o fundamento da teoria, pois a
partir da transformação da natureza pelo
homem a inteligência humana foi crescendo e desenvolvendo. A relação prática
que o homem estabelece com o meio obriga-o a pensar sobre a sua prática, seus
problemas e soluções.
A
exemplo que as teorias se desenvolvem a partir da necessidade de produção
humana, o autor cita várias ciências pontuando seu desenvolvimento mediante as demandas históricas e sociais: a
física, a química e as matemáticas. Tal
evolução também decorre do inter-relacionamento das ciências afins , como
afirma o autor:
“Em suma, de forma mais ou menos
direta, a produção através do processo
técnico por ela exigido, não cessou de impulsionar as matemáticas, estas são um poderoso estímulo e fonte de
desenvolvimento nas exigências da física, particularmente da quântica, que a
cada momento a ela recorre para descrever e explicar suas descobertas”:220
Considerando
as exigências da prática moderna há uma tendência ao desenvolvimento da teoria.
Segundo o autor, a ciência não só serve a produção mas está em suas entranhas,
nas máquinas, na automação e na tecnologia. Nesse sentido, “teoria e prática se unem e se
fundem mutuamente”:223
A
exemplo da unidade entre teoria e a prática observa-se a própria teoria de Marx
e Engels quando retoma a prática social
como condição para o nascimento e desenvolvimento teórico. “A teoria da revolução surge em estreita relação com a atividade prática e se enriquece com novas soluções à medida em
que se enriquece a luta revolucionária
do proletariado.”:223
O autor passa a uma análise da
Teoria marxista, sua evolução tendo como
referência a prática social, no intuito de
elaborar rigorosamente sua teoria da revolução. A priori faz um balanço da prática revolucionária, para a seguir
dedicar-se a abordagem de problemas
relacionados à revolução, como: estado, luta de classes, etc. Seu interesse
teórico centraliza-se no modo produção capitalista e suas contradições, para
então, dedicar-se às obras econômicas numa investigação das estruturas de formação econômico-social do capital.
A obra de Marx O Capital distingue-se de todas as
teorias econômicas por seu caráter científico
identificar-se com a praxis
revolucionária. “O Capital começa com a análise profunda da mercadoria e
termina com as classes sociais, ainda que Marx só tenha podido dedicar a esta análise vinte linhas de um capítulo que
não pôde escrever.”: 227
Um pensamento interessante , é que a
prática sempre surpreende e, por vezes, traz
experiências novas que rompem limites teóricos, daí o enriquecimento dinâmico
da teoria. É o que acontece quando Lênin amplia concepções marxistas sobre a
teoria da revolução. “A teoria
revolucionária não se desenvolve em prol
da teoria mesma, e sim em nome da praxis; é uma teoria baseada na prática que tende, por sua
vez, a resolver contradições que se
apresentam real e efetivamente.”:230. A teoria, no entanto, extrapola os
limites da realidade da praxis, tem uma relativa autonomia pois, é capaz de orientar práticas que não existem
materialmente, através da finalidade –
“antecipação ideal da prática que ainda não existe”:233.
Segundo o autor, a prática tem sua racionalidade, mas é
exatamente a teoria que a explicita: revelando-a. A prática tem papel
determinante, como fundamento, finalidade e critério. O papel da teoria torna-se importante pois é em relação com a
teoria que a praxis é compreendida. Entre teoria e prática deve haver unidade e
não identidade, uma relação de autonomia é condição indispensável para que “ a teoria sirva a prática, já que implica na
exigência de que a teoria não se limite a ir a reboque da prática, e sim que,
em maior ou menor grau, se antecipe a própria prática”:238. Mesmo esta
autonomia tem graus de relatividade pois
ambas são dependentes sob o ponto de vista do condicionamento.
“A praxis é, na verdade, atividade teórico-prática,
ou seja, tem um lado ideal, teórico e um
lado material, propriamente prático com a particularidade de que só
artificialmente, por um processo de abstração, podemos separar, isolar um
fato.”: 241
A
prática tem uma racionalidade oculta,
necessitando de um olhar especial. O
autor coloca a necessidade do domínio de uma “linguagem conceitual
correspondente” (235), para o entendimento do fenômeno científico. A ciência
proporciona a chave para o entendimento de sua própria prática experimental.
Numa
sociedade capitalista, que se baseia no falseamento da verdade no âmbito da
prática material, o conhecimento científico tem extremo valor revelador. Tal premissa abre o debate para
importância da teoria no socialismo ou
no comunismo, já que nestes modelos a produção pressupõe uma
transparência nas relações de produção. O autor afirma que a teoria será sempre
necessária, “a prática não fala por si
mesma e exige uma relação teórica com ela: a relação da práxis”:237
A praxis implica
na subjetividade e objetividade, pois “ da mesma maneira que a atividade teórica, subjetiva, por si só,
não é a praxis, tão pouco o é uma atividade material do indivíduo, ainda que
possa desembocar na produção de um objeto, quando lhe falta o momento
subjetivo, teórico, representado pela consciência dessa atividade”:241
A
consciência tem por sua vez, que introjetar certo dinamismo no processo de
produção para alcançar o plano ideal proposto ou modifica-lo ( pois sempre o real, por suas
múltiplas determinações, interfere no plano ideal). O produto real é o fim do processo interativo entre o ideal e
o plano prático.
O
que nos parece marcante no texto, é que
a teoria parte da prática e a ela retorna
com um conhecimento elaborado concretamente. Tal movimento é dinâmico, pois
na ação de retornar à prática, esta já
não é mais a mesma, a teoria então modifica-se, daí a importância de sua
característica prognóstica. A praxis é exatamente este todo dialético
teórico-prático que não pode ser dissociado.